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23 de Agosto, 2019, 00:14:08

Autor Tópico: Manchas de vinho tinto no carpete +16  (Lida 140 vezes)

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Manchas de vinho tinto no carpete +16
: 28 de Fevereiro, 2015, 01:45:45
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Diferente da última que postei, essa não tem violência explícita e não é nada gore.
Também não tem sexo, porém ainda é bem densa por tratar de death e tragédia.
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Seus lábios estavam malucados, seu queixo manchado com o sangue seco, mas ele não parava de morder a si mesmo como quem deseja se punir por alguma idiotice. Para diminuir o auto flagelo, mas sem deixar de se punirm retorna a um velho amigo: o cigarro. Retira do maço um tubo, com as mâos trêmulas, o leva até a boca e acende com dificuldade o isqueiro, machucando seu dedão na pedra do mesmo. Aproxima a ponta do cigarro da chama e dá o trago inicial para queimá-lo.

O incêndio tem início. Dentro de sua mente, todos os momentos que passaram juntos. Todos os bons. Seus passeios pela cidade, suas noites de bebedeira juntos, as drogas, o sexo. A súbita saudade bate, embora não tenha muito mais do que um mês de que terminara o maior relacionamento de sua vida. Ele tenta se lembrar dos maus momentos, como quem quer uma justificativa babaca para um erro idiota. Como quem julga inferior quem primeiro o julgou inferior para se sentir superior e essas baboseiras e outras mentiras que contamos a nós mesmos.

O cigarro é um martelo na sua cabeça. Cada trago e sente como se fosse explodir ali mesmo, no canto de seu pequeno apartamento de quarto único, jogado ao chão entre baratas, formigas, e manchas de vinho no carpete que já duram meses, mas quem tem tempo para se preocupar com isso quando a vida está no auge? As manchas de vinho... Cada uma representava uma história a ser contada. Inclinava a cabeça e fitava uma mais distante. Era um vinho muito ruim...

Os dois dançavam valsa, muito mal por sinal, no meio da sala, mas não havia música alguma tocando. Riam e riam e sorriam e sorriam, que felicidade é amar alguém e ser amado. Ele a ama com toda certeza. Estavam já alterados de cervejas e cigarros, no caminho para casa compraram a garrafa de vinho por vinte reais, mas era uma de rolha e não rosca. Já não tinham mais dinheiro algum para um saca rolha e não o possuíam em casa. O gênio teve a ideia brilhante, agarrou uma tesoura e empurrou a rolha garrafa adentro. Quando conseguiu, o líquido espirrou, encharcou-o e o carpete, causando a mancha. Não que um deles tenha se importado. Ele só tirou a roupa e dançou com sua acompanhante.

Hoje, o carpete está manchado mais uma vez. Mas não de vinho. Ela havia dito que eles não dariam certo. Como não dariam certo? Haviam dado certo por tanto tempo, como de repente não dão certo? Ela simplesmente não consegue aguentar. A infelicidade a consumiu faz tempo, mas também havia saudade dos tempos felizes e olhava cada mancha no carpete com pouquíssima esperança de que esses tempos voltariam. Ela não queria terminar assim, realmente não queria, eu te amo, ela repetia.

Tudo tem o seu tempo. Tudo que começa acaba, é inevitável. Ele imaginava, porém, que terminaria com a morte de um deles. Mas era tarde. Ela já estava morta há meses, como disse a própria, sentia falta de viver e sentia que com ele não vivia mais, só existia. Acabou, é isso... Mas alguém tem de pagar o preço. Além de seus lábios, seus punhos estavam avermelhados, sua mente entrava em choque toda vez que olhava para o outro canto do quarto. O corpo jogado de qualquer forma, o sangue deixava o rosto irreconhecível. Eu te amo, repetia para si mesmo, é verdade.